No interior brasileiro, especialmente em regiões do Agreste nordestino, as práticas
populares de cura sempre tiveram um papel importante nas relações entre as pessoas da
comunidade. As curandeiras e benzedeiras, frequentemente sendo mulheres idosas, negras ou
mestiças, são reconhecidas por praticarem uma medicina fundamentada em rezas, chás,
unguentos e uso de ervas, em combinação com a fé e a tradição oral. Essas mulheres, muitas
vezes invisibilizadas pela historiografia oficial e pelas políticas públicas, exercem papéis
fundamentais na manutenção da saúde comunitária, da fé popular e das redes de solidariedade
em contextos de escassez de serviços médicos formais em suas localidades.
Mesmo diante da ausência histórica de serviços médicos formais, elas preservaram
saberes ancestrais e construíram redes de cuidado comunitário baseadas em fé, tradição e
solidariedade. Este estudo faz parte do meu Trabalho de Conclusão de Curso, que investiga a
força dessas práticas e o papel dessas mulheres na preservação da cultura e memória do
Agreste.
Esta pesquisa foi elaborada com base em entrevistas realizadas com benzedeiras e
habitantes da Vila Tupi, em Canhotinho, além de revisão bibliográfica e observação em
campo. A abordagem qualitativa possibilitou a identificação de que a presença dessas
mulheres está intimamente relacionada a uma visão de mundo em que fé e natureza
coexistem. As rezas, geralmente aprendidas de forma oral, são passadas de mãe para filha ou
por meio de instruções religiosas. Por outro lado, as ervas, coletadas no território local,
fortalecem a conexão com a terra, a ancestralidade e a espiritualidade da região. As histórias
mostram que o respeito comunitário não se deve somente à habilidade de curar doenças
físicas, mas também ao papel que essas mulheres exercem como preservadoras da memória
cultural e emocional.
Personalidades como Dona Maria Luiza de Aquino, benzedeira da Vila Tupi e bisavó
da pesquisadora, evidenciam a relevância dessas tradições para a identidade da comunidade.
Dona Maria Luiza, que atuou na comunidade por várias décadas, tornou-se uma referência
em benzeduras para quebranto, espinhela caída e dores no corpo, empregando rezas, terços e
gestos que intensificavam a sensação de proteção espiritual. Assim como ela, ainda hoje
outras mulheres preservam a tradição realizando rituais de cura que combinam palavra,
devoção e simbolismo, mantendo uma herança que resiste ao tempo e às mudanças sociais.
A análise dos depoimentos confirma que o trabalho das curandeiras transcende a
prática de cura física; é uma atuação social abrangente que inclui suporte emocional,
resolução de conflitos e preservação das relações comunitárias. Apesar do progresso da
medicina institucional, os conhecimentos populares permanecem como uma opção acessível,
afetiva e culturalmente relevante para diversas famílias no Nordeste. Sua presença evidencia
que o saber ancestral continua vivo não só nos rituais, mas também na forma como as
comunidades percebem o cuidado, a saúde e a espiritualidade.
Entender o papel dessas mulheres é reconhecer a profundidade de seus conhecimentos
e a relevância de valorizar as tradições populares como parte do patrimônio cultural imaterial
brasileiro. As curandeiras e benzedeiras do Agreste proporcionam um tipo de cuidado que
une corpo, espírito e comunidade, quebrando as barreiras entre fé e medicina. Ao atentar para
seus gestos, narrativas e ensinamentos, nota-se que elas são autênticas guardiãs de uma
sabedoria que perpassa gerações e segue fortalecendo identidades, preservando memórias e
criando redes de resistência cultural. Dessa forma, a pesquisa confirma que essas tradições
não são coisa do passado, mas permanecem vivas, vibrantes e fundamentais para entender a
diversidade cultural do Nordeste.
As comunidades quilombolas do Agreste pernambucano conservam viva a memória de uma ancestralidade africana e uma histórica luta por direitos sociais e territoriais. Formadas por descendentes de escravizados fugitivos, essas comunidades resistiram ao colonialismo e à exclusão até os dias atuais. Castainho (em Garanhuns-PE) e Imbé (em Capoeiras-PE) exemplificam essa trajetória de enfrentamento às injustiças. Como observam estudos locais, “o Quilombo do Castainho está situado em Garanhuns-PE e possui grande relevância histórica e cultural. Esse quilombo é um dos muitos que simbolizam a resistência dos povos afro-brasileiros desde o período colonial”(Gomes e Santos 2023). Hoje reconhecidas como Comunidades Remanescentes de Quilombos (CRQs), elas preservam saberes, festividades e identidades próprias, enquanto reivindicam o direito às suas terras. Os quilombos do interior de Pernambuco remontam aos remanescentes do antigo Quilombo dos Palmares (extinto em 1694), cujos fugitivos se dispersar...
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