Pular para o conteúdo principal

RESISTÊNCIA E ANCESTRALIDADE: AS LUTAS QUILOMBOLAS NO INTERIOR DE PERNAMBUCO

As comunidades quilombolas do Agreste pernambucano conservam viva a memória de uma ancestralidade africana e uma histórica luta por direitos sociais e territoriais. Formadas por descendentes de escravizados fugitivos, essas comunidades resistiram ao colonialismo e à exclusão até os dias atuais. Castainho (em Garanhuns-PE) e Imbé (em Capoeiras-PE) exemplificam essa trajetória de enfrentamento às injustiças. Como observam estudos locais, “o Quilombo do Castainho está situado em Garanhuns-PE e possui grande relevância histórica e cultural. Esse quilombo é um dos muitos que simbolizam a resistência dos povos afro-brasileiros desde o período colonial”(Gomes e Santos 2023). Hoje reconhecidas como Comunidades Remanescentes de Quilombos (CRQs), elas preservam saberes, festividades e identidades próprias, enquanto reivindicam o direito às suas terras.

Os quilombos do interior de Pernambuco remontam aos remanescentes do antigo Quilombo dos Palmares (extinto em 1694), cujos fugitivos se dispersaram pela região agreste. É nesse contexto que se formaram os núcleos do Castainho e do Imbé. Castainho, por exemplo, tem sua história “intimamente ligada ao Quilombo dos Palmares, o que caracteriza Garanhuns como ‘terra de preto’”(Santos 2010). A população do Castainho descende dos negros que sobreviveram às guerras coloniais, formando hoje centenas de famílias que trabalham na agricultura familiar. A pesquisa de Santos (2010) destaca que Castainho foi pioneira no processo de titulação de terras em Pernambuco, reforçando seu papel central na luta territorial (Santos 2010).

Já o Quilombo Sítio Imbé, em Capoeiras, tem origem ancorada em histórias de resistência semelhantes. Relatos locais apontam que o Imbé foi fundado por um pequeno grupo de africanos que escapou da escravidão no sul de Alagoas e se estabeleceu nesta região agrestina (Mota 2022). Embora não disponha de titulação definitiva, a comunidade já possui certificado de remanescente de quilombo e luta para garantir a posse de aproximadamente 180 hectares onde cerca de 150 pessoas vivem do cultivo da terra.

Em ambas as comunidades, a ancestralidade africana é vividamente preservada. Os moradores mantêm festas e rituais que homenageiam seus antepassados. Por exemplo, em Castainho realiza-se anualmente a “Festa da Mãe Preta”, em que se escolhe a mulher mais idosa como líder espiritual da comunidade(Santos 2010). Esse e outros rituais sincréticos revelam um patrimônio cultural afro-brasileiro que persiste, mesmo sob a pressão das religiões ocidentais. Como comenta Santos (2010), Castainho “ainda mantém a chamada ‘Festa da Mãe Preta’”(Santos 2010), evidenciando um vínculo direto com tradições negras. O culto às figuras dos “negros velhos” ou a preservação de árvores ritualísticas são estratégias de resistência cultural que mesclam elementos africanos e católicos em prática discreta. No Imbé, embora haja menos estudos publicados, sabe-se que valores e tradições afrodescendentes marcam o cotidiano comunitário, seja por meio da língua, da culinária ou do artesanato com cerâmica (como ainda praticam algumas mulheres da comunidade). Esses laços culturais reforçam a identidade comunitária e o sentimento de pertencimento de cada quilombola ao seu “espaço” ancestral.

A luta pela terra e pelo reconhecimento legal é constante nessas comunidades. Conforme Carril (2006), “o quilombo rural traduz sua luta pela terra e também pela especificidade étnica, tanto vinculada ao direito territorial como calcada sobre a ancestralidade buscada na origem da conquista da terra”(Carril 2006). Essa análise encaixa-se exatamente à realidade local: Castainho e Imbé reivindicam seus territórios originais como condição de sobrevivência física e cultural. Em Castainho, por exemplo, houve longa campanha até a demarcação oficial. Segundo a Fundação Palmares, Castainho já era certificado como remanescente em 1998 e só teve sua área de 190 hectares demarcada pelo INCRA em 2004, sendo posteriormente titulada pelo governo estadual em 2020. Esse feito, fruto de décadas de organização comunitária, serve de modelo para outras localidades(santos 2010). No Imbé, por outro lado, ainda não foi firmado o título definitivo de terra: o certificado de quilombo obtido permite acesso a políticas públicas, mas a regularização fundiária aguarda conclusão. A falta de terras suficientes para cultivo continua prejudicando a subsistência; como relata pesquisa, os moradores historicamente trabalharam nas fazendas alheias por salário irrisório para obter um pequeno roçado próprio. A escassez de terra própria força a dependência de aposentadorias e programas sociais, revelando a persistência de desigualdades.

Politicamente, as comunidades se articulam em redes locais e nacionais (como o CONAQ) para fortalecer suas reivindicações. Lideranças quilombolas participam de fóruns e reuniões públicas, buscando visibilidade para suas causas. Em Castainho e Imbé, as representações comunitárias têm promovido seminários, encontros culturais e parcerias com universidades (como mostra o projeto do IFPE em Garanhuns), ampliando a voz quilombola na agenda pública. Segundo Santos (2010), Castainho “não aceita de forma passiva as imposições feitas pela sociedade vigente, procurando atuar de forma profícua nas questões contemporâneas, servindo, assim, de modelo às outras comunidades quilombolas”(Santos 2010). Essa postura ativa reflete que, na visão dos quilombolas, a luta atual não é só pela posse da terra, mas pela afirmação dos seus direitos e da sua herança cultural. Como afirmam parte dos próprios quilombolas entrevistados, a resistência de hoje se dá sobretudo em torno da memória e da identidade: “antes os escravos lutavam pela liberdade; atualmente, a luta é pela recuperação ou reinvenção da identidade cultural”(Santos 2010). 

Referências

ALMEIDA, Kátya Carvalho Alexandre; ROCHA, Vanderley Almeida. Educação na Comunidade Quilombola do Imbé – PE: Por uma educação decolonizada e intercultural. In: RODRIGUES, Cibele Maria Lima; SILVA, José Nunes da (Orgs.). Saberes, resistências e identidades. 1. ed. Recife: EDUFRPE, 2020. p. 22-31.

CARRIL, Lourdes de Fátima Bezerra. Quilombo, território e geografia. Agrária, São Paulo, n. 3, p. 156-171, 2006.

GOMES, Israelly Soares et al. Quilombos de Garanhuns: resistência, cultura e sustento. Projeto de pesquisa. Instituto Federal de Pernambuco (IFPE), Campus Garanhuns, 2023.

SANTOS, Maria Pricila Miranda dos. A comunidade de Castainho: uma contribuição aos estudos geográficos de remanescentes de quilombos em Garanhuns, Pernambuco. 2010. 135 f. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2010.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Estação Ferroviária de Garanhuns: Um Marco Histórico, Cultural e Arquitetônico

     Fundada no ano de 1887, a estação ferroviária de Garanhuns marcou profundamente o desenvolvimento do Agreste de Pernambuco. Segundo registros, a primeira viagem aconteceu de fato no dia 28 de setembro do mesmo ano. Ligando Palmares a Garanhuns e integrando a região a um dos sistemas de transporte mais modernos da época. Ademais, Pernambuco, foi o segundo estado brasileiro a possuir uma malha ferroviária estruturada e o primeiro do Nordeste, o que evidencia a relevância dessa linha para o avanço econômico e social do estado.      Tratando-se do prédio onde era localizada a estação ferroviária, preserva-se até hoje a arquitetura inglesa do século XIX, característica das construções ferroviárias implantadas no Brasil durante o período. Os traços presentes nesse tipo de arquitetura demonstram que, por ter essa presença de materiais duráveis e linhas mais simples, demonstram tratar-se do edifício original, erguido ainda no século XIX. Ao longo de décadas, a...

"Capitoa" D. Brites de Albuquerque: A primeira governante de Pernambuco

     Diante da indesejável presença francesa na América Portuguesa e do avanço espanhol na região, Dom João III, rei de Portugal, reconheceu a urgência de ocupar e administrar eficazmente suas terras nas Américas. Assim, o Estado português passou a abordar, de forma estratégica, a tarefa de colonização dessas novas terras. Em 1532, D. João III instituiu o sistema de donatarias para o povoamento da colônia — um modelo administrativo que já havia demonstrado sucesso na ilha da Madeira e nos arquipélagos dos Açores e de Cabo Verde.     Nesse contexto, o litoral das novas terras americanas foi segmentado em capitanias, e as parcelas de terra foram concedidas a nobres de confiança da Coroa Portuguesa. A esses donatários cabia a responsabilidade de ocupar a costa entre Pernambuco e o rio da Prata, incluindo a obrigação de armar navios, recrutar pessoas, arcar com as despesas e administrar a nova colônia. Duarte Coelho Pereira foi agraciado com a capitania de Pernambuc...

O Sertanejo: Resistência e Vida no Sertão

  A frase célebre de Euclides da Cunha, em seu livro os sertões 'O sertanejo é, antes de tudo, um forte', capturou a essência da resistência e desigualdade presenciadas na Guerra de Canudos. Este conflito representou uma batalha desproporcional: um exército armado contra um povo cuja maior arma era sua própria bravura e formação cultural. O cenário descrito é emblemático do Brasil, onde o homem do litoral, com suas modernidades, confronta o sertanejo, vítima do esquecimento preso ao sertão. É importante considerar que o Nordeste abriga dois mundos distintos. De um lado, temos uma região rica em recursos naturais, com solo fértil e chuvas regulares, propícia para a economia agrícola, especialmente o cultivo da cana-de-açúcar. Do outro lado, encontramos o semiárido, uma terra severa, de temperaturas elevadas e solo árido, que os indígenas chamavam de 'Cantiga', devido à aparência esbranquiçada das plantas na estação seca, quando muitas perdem suas folhas. Nesse amb...