Pular para o conteúdo principal

O ataque de Lampião a região de Serrinha do Catimbau (Paranatama)

 

 O fenômeno do banditismo se manifestou de maneira marcante no Sertão do nordeste brasileiro. Durante a República Velha (1889-1930) e nos primeiros anos do Estado Novo (1930-1945), o fenômeno do banditismo surgiu no nordeste brasileiro através do cangaço. Os cangaceiros eram “foras da lei” que se rebelavam contra a sociedade dos coronéis. Contudo, não tinham interesse em mudar a sociedade, apenas viver a margem dela, fazendo suas próprias regras. O cangaceiro mais conhecido, e um dos últimos cangaceiros a existir, foi Virgulino Ferreira da Silva, conhecido como Lampião, ou mesmo como o “Rei do Cangaço”. Ele foi responsável por criar a estética do cangaço e de introduzir as mulheres nos bandos de cangaceiros, que eram exclusivamente masculinos, ao se apaixonar e se juntar com Maria Bonita.

Contudo, Lampião era muito conhecido pelos crimes violentos que cometia, entre eles, ataques com seu bando a várias regiões do nordeste. Entre os muitos ataques de Virgulino, houve um ataque a região de Serrinha do Catimbau, atual Paranatama. O antigo distrito de Garanhuns tinha esse nome devido a Serra do Catimbal. Paranatama foi elevado à categoria de vila em março de 1938 e passou a ser denominado Itacoatiara. Em 1943, teve seu nome trocado para Paranatama, sendo desmembrado de Garanhuns em dezembro de 1963. O município de Paranatama faz fronteira ao norte com o município de Caetés, ao sul com Saloá, ao leste com Garanhuns, e a oeste com Pedra, todos municípios do Estado de Pernambuco.

Os ataques de cangaceiros tinham, de maneira geral, o propósito de saquear regiões. Existe uma romantização da figura do cangaceiro como uma espécie de “Robin Hood” do Sertão, que roubava dos ricos para dar aos pobres. Na verdade, os cangaceiros roubavam dos ricos para si próprios, quando sobrava alguma coisa, eles doavam aos pobres, mas quando faltava, os cangaceiros roubavam dos pobres também, foi o caso do ataque de Lampião e seu bando à vila de Serrinha do Catimbau. Os cangaceiros também cometiam muitos outros atos violentos como violência sexual de mulheres e torturas. O fenômeno do cangaço é um fenômeno complexo. Se por um lado, os cangaceiros são uma resposta a tirania dos coronéis e da violenta desigualdade social, por outro lado, eles não são revolucionários libertários que lutam pelos pobres. Antes, os pobres eram, muitas vezes vítimas dos cangaceiros.

A antiga vila de Garanhuns se viu em apuros no sábado, dia 20 de julho de 1935, com um ataque do bando de Lampião, um dia após o ataque próximo da região, no Sítio Azevém, distante cerca de uma légua da região, onde o bando de Lampião assassinou o agricultor José Gomes. O pânico tomou conta da região de Serrinha quando quando chegou a notícia que Lambião estava a caminho da vila. Em uma casa ao lado esquerdo da igreja morava Floriano Duda da Costa, o Floro Duda, que foi uma testemunha do ocorrido. Floro Duda acordou de madrugada com o som das conversas na rua. Ele acendeu um candeeiro e encostou-se ao pé da porta e ficou escutando o assunto que deixou a população tão inquieta. Não se aguentando de curiosidade, abriu uma brecha da porta de cima e perguntou o que estava acontecendo, foi quando soube que era Lampião e seus homens que estavam para invadir Serrinha. Quando Floro começou a conversar com seu padrinho e as demais pessoas que estavam na casa, ele ouviu uma voz forte de um dos homens do bando de Lampião ordenando que ninguém se mexesse, pois Lampião acabara de chegar.

Todos ficaram imóveis. Começou um conflito armado entre os próprios moradores e os cangaceiros. Em meio a troca de tiros, Maria Bonita foi baleada, Lampião ordenou a retirada imediata das tropas imediatamente, os cangaceiros abandonaram os cavalos e fugiram a pé. Com a vila livre dos cangaceiros, alguns moradores saíram às ruas para ver o resultado da batalha. Pelo chão havia muitas cápsulas deflagradas nos lugares usados como trincheira. Um dos cachorros do bando morreu baleado e outro ficou perdido pela vila por um tempo, depois sumiu da região. Entre os humanos, não houve vítimas fatais, mas Lampião levou alguns homens que o bando encontrou, José Saturnino de Barros e seu sogro Siríaco, de reféns.

José Saturnino e seu sogro nada sabiam do acontecido, apenas caminhavam em direção a vila. Eles foram obrigados a carregar Maria Bonita que havia se ferido na batalha, outros homens que foram capturados posteriormente revezavam nesta tarefa. Lampião, após a retirada vergonhosa, jurou vingança, mas nunca pode executá-la. Com a chegada da volante, seria um má ideia retornar a vila de Serrinha.

José Lucas Alves Espindola

 

Referências:

DUARTE, Adriano de Carvalho. Lampião, Cangaço e Coronelismo. 1ed. Jardim, CE: Ed. Dos Autores, 2022.

ALMEIDA, Junior. Lampião: em Serrinha do Catimbau. 1ed. Garanhuns, PE: Ed. Do Autor, 2022.

ALMEIDA, Junior. Lampião, o cangaço e outros fatos do agreste pernambucano Vol.1. 1ed. Garanhuns, PE: Ed. Do Autor, 2018.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

RESISTÊNCIA E ANCESTRALIDADE: AS LUTAS QUILOMBOLAS NO INTERIOR DE PERNAMBUCO

As comunidades quilombolas do Agreste pernambucano conservam viva a memória de uma ancestralidade africana e uma histórica luta por direitos sociais e territoriais. Formadas por descendentes de escravizados fugitivos, essas comunidades resistiram ao colonialismo e à exclusão até os dias atuais. Castainho (em Garanhuns-PE) e Imbé (em Capoeiras-PE) exemplificam essa trajetória de enfrentamento às injustiças. Como observam estudos locais, “o Quilombo do Castainho está situado em Garanhuns-PE e possui grande relevância histórica e cultural. Esse quilombo é um dos muitos que simbolizam a resistência dos povos afro-brasileiros desde o período colonial”(Gomes e Santos 2023). Hoje reconhecidas como Comunidades Remanescentes de Quilombos (CRQs), elas preservam saberes, festividades e identidades próprias, enquanto reivindicam o direito às suas terras. Os quilombos do interior de Pernambuco remontam aos remanescentes do antigo Quilombo dos Palmares (extinto em 1694), cujos fugitivos se dispersar...

Maracatu Rural: Uma expressão pernambucana

  O Maracatu Rural, também conhecido como Maracatu de Baque Solto, é uma expressão cultural profundamente enraizada na Zona da Mata pernambucana, constituindo-se como uma das mais ricas e emblemáticas manifestações populares do estado de Pernambuco. Diferente do Maracatu Nação (ou de Baque Virado), o Maracatu Rural apresenta características únicas que refletem sua história e conexão com o universo rural. Ele surge como uma expressão híbrida, resultado de uma complexa interação entre elementos africanos, indígenas e europeus, evidenciando a interculturalidade da cultura brasileira. Uma das figuras mais marcantes dessa manifestação é o caboclo de lança, símbolo central do Maracatu Rural. Com seus trajes exuberantes, golas bordadas, chapéus adornados com fitas coloridas e uma lança decorada, o caboclo de lança representa a força, a resistência e a identidade cultural das comunidades que preservam essa tradição. O papel desse personagem transcende o aspecto performático, pois ele carre...