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O brado do “O Homem” (1876): A atuação da imprensa negra no Recife do século XIX

 

O século XIX é marcado pelas diversas formas de resistência empregadas pela população negra no seu decorrer, e uma dessas formas de resistir ao escrutínio do sistema escravista foi através da resistência intelectual. Pessoas negras em diversos momentos no decorrer do século usaram de seu espaço dentro do círculo letrado para combater as injustiças e desigualdades causadas pela escravidão, e o meio utilizado para isso foi a imprensa. Esse movimento ficou conhecido na historiografia como imprensa negra.

Um dos representantes da imprensa negra foi o jornal O Homem surgiu em 1876, na cidade do Recife, então capital da província de Pernambuco, foi produzido na Tipografia Correio do Recife, localizada no pátio da Matriz de Santo Antônio número 15 e teve doze edições publicadas ao longo daquele ano. Trata-se de uma iniciativa pioneira no contexto pernambucano, especialmente por assumir de forma explícita a defesa dos direitos da população negra. O periódico se destacou por dar visibilidade às demandas políticas e sociais de homens e mulheres negras em uma sociedade ainda profundamente marcada pela escravidão e pelo racismo.

Compreender o jornal O Homem, e compreende-lo como um instrumento de luta política e de afirmação da população negra. Busca-se entender o papel do periódico em meio às tensões raciais do século XIX, bem como a atuação de seu editor, o Dr. Felippe Neri Collaça, homem negro e bacharel em Direito, que utilizou sua inserção no meio intelectual para denunciar as injustiças sofridas pela população negra e defender a ampliação de direitos.

Desde sua primeira edição, O Homem deixou claros seus princípios: promover a união, a instrução e a moralização dos “homens de cor” pernambucanos; defender seus interesses políticos; e lutar pela aplicação efetiva dos direitos constitucionais, com o objetivo de garantir igualdade jurídica entre todos os brasileiros. Nesse sentido, o jornal assumiu a imprensa como espaço de disputa política e simbólica, posicionando-se de forma firme a favor da abolição da escravidão.

De maneira mais ampla, a chamada imprensa negra foi composta por periódicos criados por intelectuais negros letrados, que utilizaram o jornal como ferramenta de denúncia das desigualdades sociais e da violência estrutural imposta à população negra. Esses periódicos tiveram papel fundamental na articulação política, na mobilização social e na resistência ao racismo. Dentro desse conjunto, O Homem se destacou pela valorização da educação e pelo estímulo à consciência racial, apostando na formação política e intelectual da comunidade negra. A atuação de Felippe Neri Collaça à frente do jornal é central para compreender a existência de uma esfera pública negra no período.

A pesquisa se insere no contexto do fortalecimento do movimento abolicionista a partir do final da década de 1870, quando a imprensa passou a desempenhar um papel estratégico na circulação de ideias, na formação da opinião pública e na articulação de redes militantes. Assim, a pesquisa procura valorizar a contribuição intelectual, política e cultural de sujeitos negros que atuaram ativamente na imprensa e participaram da construção de espaços públicos de debate, enfrentando o apagamento histórico que tradicionalmente silenciou essas vozes.

Os objetivos ao analisar a produção intelectual da imprensa negra em Pernambuco a partir do jornal O Homem, buscando entender o jornal como instrumento de luta e afirmação da população negra; investigar também a questão da cidadania negra no final do século XIX por meio da trajetória de Felippe Neri Collaça, cuja inserção na elite intelectual não o afastou das pautas políticas da população negra; examinar o embate entre as ideias defendidas pelo jornal e os discursos raciais que ganhavam força no período, especialmente aqueles baseados em teorias pseudocientíficas; e compreender o uso de personagens negros nas páginas do periódico como estratégia de afirmação da agência negra, de mobilização política e de fortalecimento dos laços identitários.

O jornal estruturava-se a partir de duas ideias centrais: a defesa da população negra diante das injustiças por ela sofridas e a mobilização da memória de personagens negros que exerceram protagonismo e agência na história do Brasil — e, em alguns casos, em contextos mais amplos — como estratégia de revalorização de sua atuação histórica. Nesse sentido, o periódico mencionava figuras como Alexandre Dumas, Felipe Camarão, André Rebouças e Henrique Dias, entre outros nomes relevantes da história negra. Por meio dessa abordagem, o jornal buscava fomentar o engajamento da população negra, promovendo, em suas páginas, o debate sobre a união da classe dos homens de cor e a defesa coletiva de seus direitos e interesses.

O estudo se apoia em autores que discutem a história da imprensa brasileira, como Tania Regina de Luca, Ana Luiza Martins, Marco Morel, Mariana Monteiro de Barros e Marinalva Barbosa; a imprensa pernambucana, com destaque para os trabalhos de Luiz do Nascimento; e a imprensa negra, a partir de estudos de Ana Flávia Magalhães Pinto, Rafaella Galvão, Leonardo Dantas e Marc Jay Hoffnagel. Também são mobilizadas reflexões sobre o abolicionismo, a cidadania negra, as noções de liberdade e as teorias raciais, a partir de autores como Ângela Alonso, Wlamyra Albuquerque, Sidney Chalhoub, Lilia Schwarcz e Thomas Skidmore.

Apesar desses avanços, a imprensa negra em Pernambuco ainda é pouco estudada, e o jornal O Homem, embora reconhecido como o primeiro periódico abolicionista da província, segue pouco analisado. Diante disso, a pesquisa propõe um exame detalhado das doze edições publicadas em 1876, com foco em seus editoriais e nas ideias defendidas em favor da população negra. É importante que as pesquisar sobre a imprensa negra continue avançando, para que as pesquisas sobre a resistência intelectual negra dentro do século XIX. É necessário colocar luz sobre a agência desses intelectuais negros, que usaram do seu espaço dentro do círculo letrado das elites para desenvolver uma esfera pública de debate sobre a população de cor dentro do século XIX. 

Jornal O Homem, 1876, 1° Ed

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