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Agências indígenas na província pernambucana no século XIX

Os indígenas sempre estiveram presentes em diversos movimentos e conflitos, de níveis locais e nacionais, que tem seus antecedentes no período colonial, desde o enfrentamento contra outros colonizadores a disputas políticas regionais. Essas atuações das populações nativas em mobilizações sociais revelam-se fundamentais em diversos contextos, estando presentes não só em um dos lados, mas que reflete uma atuação de complexas relações entre indígenas e não indígenas. Essas vivências dos povos originários no contexto colonial, demonstra uma atividade política destes, assim como suas percepções e estratégias diante de um novo sistema imposto pelos colonizadores portugueses, onde houve interferências e mudanças em toda a dinâmica política e social destes povos que irá influenciar em toda sua história até os dias atuais. 

No contexto Pernambucano, a presença indígena nas revoltas e movimentos políticos ocorridos ao longo do século XIX — como a Revolução de 1817 e a Confederação do Equador — mostra que essas populações já possuíam um histórico de envolvimento nas disputas locais de poder e na defesa de seus interesses territoriais, inclusive com antecedentes coloniais de outros séculos, como por exemplo a expulsão dos holandeses em 1654. Nesses contextos, é relevante observar que, embora os indígenas fossem inseridos nas mobilizações militares como formas de corrigir e subordinar esses sujeitos por determinação de poderes políticos, especialmente por meio dos recrutamentos forçados, não se classificava como relações de submissão absoluta, como era a questão escravista dos africanos nesse mesmo período. Ao contrário, tratavam-se de relações de caráter clientelista, nas quais os indígenas, ainda que em posição desigual em relação aos não indígenas, conseguiam negociar interesses próprios e exercer certa agência política. Essas interações, portanto, revelam a existência de espaços limitados, mas reais, de negociação e reciprocidade, nos quais os indígenas buscavam assegurar benefícios, proteção ou reconhecimento dentro da estrutura de poder imperial. 

Entre revoltas e insurreições, a província pernambucana foi cenário de inúmeras batalhas, protestos e ideias, que moldaram uma identidade muito forte e até mesmo heróica. Nesse processo, é possível identificar antecedentes significativos ainda no período colonial, como a expulsão dos holandeses no século XVII, episódio que contribuiu para a formação de uma identidade “patriota” local. Durante esse conflito, as populações indígenas tiveram participação decisiva, atuando em ambos os lados, tanto ao serviço dos holandeses quanto das forças luso-brasileiras, como por exemplo as lideranças Pedro Poty, aliado holandês, governante dos indígenas da Paraíba; e Felipe Camarão Capitão-Mor dos índios, súdito da coroa portuguesa que agia ao lado das forças luso-brasileiras, ambos do mesmo povo os Potiguara (Pereira, 2010, p.1). Essa dinâmica evidencia como a política administrativa sobre os indígenas nesse contexto não eliminava completamente a possibilidade de ação indígena, uma vez que, dentro dessas estruturas, surgiram grupos e lideranças que souberam negociar sua sobrevivência e influência política. Essa experiência de guerra não apenas demonstrou a capacidade indígena de mobilização e adaptação, mas também integrou essas populações à narrativa de resistência e defesa do território que, mais tarde, seria retomada em movimentos do século XIX.

O fim dos setecentos foi marcado por uma série de revoluções que transformaram profundamente o pensamento político ocidental, disseminando ideais liberais e republicanos, que provocaram o surgimento de movimentos emancipacionistas que questionavam o poder metropolitano e reivindicavam maior autonomia política. No contexto nordestino brasileiro a Insurreição Pernambucana de 1817 destacou-se como uma das mais marcantes manifestações de caráter republicano, caracterizada pela defesa da liberdade, do federalismo e do autogoverno.

Bênção das bandeiras da Revolução de 1817. Fonte: Wikimedia Commons

Nesse ambiente de tensões políticas e econômicas, a insurreição reuniu diferentes setores da sociedade como militares, clérigos, comerciantes, lavradores e intelectuais, para a defesa de maior autonomia provincial e do rompimento com o domínio português. Assim sendo, não se limitou às elites urbanas e agrárias, mas alcançou também populações rurais, libertos, escravizados e indígenas, que foram mobilizados por meio de alianças locais e relações de poder já estabelecidas. Diante desse cenário de disputas e alianças fluídas, os indígenas foram incorporados no conflito como parte das estratégias de recrutamento e mobilização de ambos os lados. Segundo Mariana Dantas (2017, p.99), os indígenas não apenas foram alvos de recrutamento, mas também agentes inseridos em um ambiente de negociações e alianças, onde sua força militar e presença política se tornaram elementos estratégicos para a consolidação de poder em disputa.

Mesmo com forte repreensão e o fim da república implementada com a Insurreição de 1817, os ideais republicanos, autonomistas e separatistas não sumiram do cenário nordestino, pelo contrário, permaneceram forte e voltaram com força anos depois na Confederação do Equador em 1824. Enquanto a Insurreição representava uma reação direta ao governo de D. João VI, a Confederação era uma resposta às continuidades de governo sob o comando de um herdeiro de Bragança após a Independência do Brasil, proclamada em 1822. A homologação da Constituição por D. Pedro I, a criação do poder moderador, e a consolidação de um Estado fortemente centralizado no Rio de Janeiro, foram vistas pelas elites e pelos setores médios das províncias do Norte — como Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba, — como um retrocesso da ideia de autonomia defendidas desde o período colonial.

 Este mapa foi publicado em Londres, em 1828, sem a atualização dos limites de Pernambuco, que, em 1817, perdeu a Comarca das Alagoas, que lutou contra os revoltosos. Em 1824, Pernambuco voltaria a perder território. Domínio público. Fonte: MultiRio

Inspirados pelos princípios de liberdade, soberania popular e autogoverno, os líderes confederados planejavam a formação de uma república federativa no Norte e Nordeste, em oposição ao modelo monárquico do recém-formado Império do Brasil. Nesse cenário de intensa mobilização política, em que ideias de autonomia e de rompimento com o centralismo imperial, espalharam-se entre diferentes camadas sociais, diversos grupos locais foram envolvidos no movimento, inclusive populações indígenas.

Nessas variadas possibilidades de entendimento do evento das diferentes camadas da sociedade, os indígenas tomaram seus interesses como ponto principal para definir as suas relações e mobilizações, posicionando-se a favor ou contra o movimento, como ocorreu em 1817. Essas populações buscaram pela defesa de suas terras coletivas, atuando conforme seus interesses, articulavam suas ações às mudanças políticas, apesar das limitações que estavam submetidos devido a suas relações com os políticos e proprietários locais, já que estes tinham o poder sobre a mão de obra e os recrutamentos militares desses indígenas (Dantas, 2025, p. 215).

No contexto da Confederação do Equador, o aldeamento de Cimbres destacou-se por sua posição contrária ao movimento confederado, declarando apoio a D. João VI e à monarquia portuguesa. Segundo Mariana Albuquerque Dantas (2025), essa escolha estava profundamente relacionada às dinâmicas políticas e territoriais locais. Para os indígenas de Cimbres, a figura do rei simbolizava a garantia da posse de suas terras e a continuidade de uma forma de administração que, embora hierárquica, assegurava certa estabilidade em relação à sua autonomia comunitária e ao controle de sua mão de obra. Em contrapartida, o avanço das forças republicanas, que viam, os aldeamentos como obstáculos à modernização e à ampliação das propriedades privadas, representava uma ameaça direta à sobrevivência dessas comunidades. Assim, ao manifestarem fidelidade ao monarca, os indígenas buscavam defender não apenas um soberano distante, mas, sobretudo, seus próprios direitos e modos de vida. Essa postura, entretanto, levou-os a serem rotulados como “fanáticos realistas absolutos” pelos confederados, que interpretaram o apoio indígena à monarquia como traição à causa emancipacionista.

É, portanto, notável que os indígenas dessa região de Pernambuco e Alagoas que se envolveram nos movimentos e revoltas do período oitocentista, participaram e agiram de acordo com os seus próprios interesses, especialmente visando a manutenção e garantia de seus territórios. Longe de serem apenas coadjuvantes nos conflitos, construíram uma experiência militar significativa, que consolidou não apenas um conhecimento bélico, mas também um sentimento de orgulho e pertencimento relacionado à sua atuação em defesa de suas comunidades. Suas ações, ora de apoio, ora de resistência aos governos instituídos, evidenciam a complexidade de suas escolhas e a capacidade de articular interesses coletivos em meio às disputas políticas e sociais do período, reafirmando seu papel fundamental na construção da história pernambucana.


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Referências

CÂMARA, Bruno Augusto Dornelas; MOURA, Carlos André Silva de (Orgs.). Confederação do Equador: instituições, ideias e sociedade. Recife: Cepe, 2025.

CARVALHO, Marcus Joaquim Maciel de. Os índios e o Ciclo das Insurreições Liberais em Pernambuco (1817-1848): ideologias e resistência. In. ALMEIDA, Luíz Sávio; GALINDO, Marcos. Índios do Nordeste: temas e problemas 3. Maceió: Edufal, 2002.

DANTAS, Mariana Albuquerque. Dimensões da participação política indígena na formação do Estado nacional brasileiro : revoltas em Pernambuco e Alagoas (1817-1848). 2015. Dissertação (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2015.

DANTAS, Mariana Albuquerque. Populações indígenas e movimentos rebeldes: Pernambuco na primeira metade do Oitocentos. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, julho 2011.

PEREIRA, João Paulo C. R. Felipe Camarão, Pedro Poty e Antônio Paraupaba: as lideranças militares indígenas nas fontes holandesas. In: XIV ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA DA ANPUH SEÇÃO PARAÍBA. Simpósio Temático 16: Império Colonial Português na América, Dinâmicas Políticas, Econômicas, Territoriais e Identitárias. 14., 2010. Anais [...]. João Pessoa - PB, 2010. Disponível em: https://dspace.sti.ufcg.edu.br/handle/riufcg/37020. Acesso 18 Out. 2025.

PRIORE, Mary Del; VENANCIO, Renato. Uma Breve história do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2010.

DANTAS, Mariana Albuquerque. Significado Diversos Para a Confederação do Equador: disputas por terras e trabalhos indígenas em Cimbres, 1820-1830. In: CÂMARA, Bruno Augusto Dornelas; MOURA, Carlos André Silva de (org.). Confederação do Equador: instituições, ideias e sociedade. Recife, Pe: Cepe, 2025. p. 214-239.



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