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A Tensão entre o Novo e o Velho: Manoel Cândido e a Edificação da Modernidade em São Bento do Una Pernambuco

 

A Tensão entre o Novo e o Velho: Manoel Cândido e a Edificação da Modernidade em São Bento do Una Pernambuco


A história de São Bento do Una, conforme analisada na tese do historiador Dilermando Pereira, é um campo fértil para se compreender a dinâmica entre as forças que impulsionam o progresso e aquelas que se apegam à tradição, revelando como esses embates moldam a memória e o patrimônio local. Nesse contexto, a gestão de Manoel Cândido Carneiro da Silva (1939–1941) emerge como um marco decisivo, caracterizando-se pela imposição de um projeto de modernidade que reorganizou o espaço urbano da cidade, levando a obra a questionar se ele foi um "empreendedor da modernidade”.


Manoel Cândido, que era Promotor Público da comarca de Bom Conselho, foi designado para o cargo de Prefeito de São Bento pelo Interventor Federal do Estado. Sua breve, mas impactante, gestão (21 de agosto de 1939 a 13 de maio de 1941) foi marcada pela ambição de estruturar o centro da cidade. Ele iniciou o traçado do centro urbano, contando com a colaboração de Dirceu Valença para demarcar as três principais avenidas. Além disso, deu início ao calçamento da cidade e, na década de 1940, foi em sua gestão que se construiu o segundo Prédio da Prefeitura e Fórum. Essas ações refletiam os "ares de mudanças", alinhando São Bento do Una aos "signos da modernidade" que, advindos dos grandes centros urbanos, começavam a se manifestar nas pequenas cidades.


No entanto, a implementação dessa visão modernizadora encontrou um obstáculo físico e simbólico: o Antigo Mercado Público. O Mercado, construído em 1884, era um espaço de comércio e festividade, mas seu tamanho desproporcional e sua localização impediam o traçado planejado para a Avenida Manoel Borba (hoje Osvaldo Maciel). Para Manoel Cândido, o Mercado se tornara uma "grande barreira". Sua decisão de derrubá-lo ilustra a tensão entre o "antigo e o moderno" e o "tradicional e o moderno”.



A demolição do Mercado, visto por alguns como "imponente" e defendido pela oposição liderada pelo ex-prefeito Adalberto Paiva como um símbolo "tradicional", gerou revolta e um intenso embate de memórias. A disputa política se concentrou na determinação do que "deve" estar gravado na memória do povo. A ação de Manoel Cândido foi decisiva e impetuosa: a oposição tentou impedir a demolição enviando um telegrama ao Governador Agamenon Magalhães, mas Manoel Cândido derrubou o mercado antes que a proibição chegasse à cidade.


Essa atitude resoluta garantiu a vitória do projeto moderno, demonstrando como as relações de poder local podem "diminuir ou 'apagar' o que existe" e dirigir as ações e mudanças. O material do Mercado demolido foi, inclusive, reutilizado para construir o Açougue Municipal ao redor da cisterna municipal. Com o espaço liberado, Manoel Cândido demarcou novas praças (como a Marechal Floriano Peixoto, hoje Historiador Adalberto Paiva). Tais transformações físicas no centro urbano de São Bento do Una, impulsionadas pela modernidade, demonstram um processo que "aniquila o que já está produzido a fim de criar mais".


A obra reconhece Manoel Cândido como um agente que, embora por um mandato curto, impôs mudanças estruturais que moldaram a cidade a partir da década de 1940. Seus feitos e as polêmicas resultantes se tornaram os "vestígios" que permitem a leitura da cidade como um "texto", no qual a materialidade da arquitetura e o traçado das ruas narram as histórias e as memórias de poder e progresso que definem a identidade local.





Rayanne Santos da Silva 






Referências


TORRES NETO, Dilermando Pereira. Cidade, história e memória: educação patrimonial em São Bento do Una - PE. 2018. 142 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Ensino de História) - Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2018


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