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A Guerra dos Mascates: Tensões Econômicas e Políticas no Pernambuco Colonial

     A Guerra dos Mascates, ocorrida entre 1710 e 1711, representa um dos

episódios mais marcantes da história colonial pernambucana, refletindo as

profundas transformações do início do século XVIII. Primeiramente, é fundamental

compreender o cenário de crise que assolava a capitania naquele momento. Sendo

assim, o fascículo Pernambuco Imortal (1995) destaca que a economia açucareira

enfrentava sérias dificuldades pela concorrência interna com a descoberta de

minérios no sul do país. Nesse sentido, o texto afirma que:


Pernambuco, no início do século XVIII, vivia uma forte crise

provocada pela queda do preço do açúcar no mercado internacional

e pela concorrência das Minas Gerais na atração de imigrantes, de

vez que ai tinham sido descobertas minas de ouro e de diamantes

que provocavam não só a migração de reinóis, vindos de Portugal,

como também de habitantes das próprias capitanias brasileiras

(ANDRADE, 1995, p. 2).


    Dessa forma, percebe-se que o contexto econômico serviu como catalisador

para as tensões sociais já existentes. Por um lado, havia a nobreza de Olinda,

composta pelos senhores de engenho tradicionais, que se viam endividados e

perdendo prestígio econômico. Por outro lado, ascendia a burguesia comercial do

Recife, formada majoritariamente por portugueses os "mascates", que detinham o

capital e o controle do crédito. Portanto, o conflito não era apenas político, mas

também uma luta de classes e interesses divergentes. O texto ressalta essa

dinâmica ao pontuar que, "como os portugueses controlavam o comércio,

naturalmente ajustavam os preços dos produtos aos seus interesses, com grande

prejuízo para os filhos da terra" (ANDRADE, 1995, p. 2).

    Além disso, a disputa pelo poder local agravou-se com a reivindicação dos

comerciantes por autonomia política. Até então o Recife estava subordinado à

Câmara de Olinda, o que impedia os mascates de terem voz ativa nas decisões

administrativas. Sendo assim, a Coroa Portuguesa, atendendo aos interesses dos

recifenses decidiu alterar esse status quo. Conforme narra o documento:

Em 19 de novembro de 1709, uma Carta Régia elevou a povoação

do Recife à categoria de vila, erigindo um pelourinho e fazendo a

demarcação do seu termo do da vila de Olinda da qual seria

desmembrada (ANDRADE, 1995, p. 3).



    Entretanto, a execução dessa ordem não foi pacífica. O governador

Sebastião de Castro e Caldas, aliado dos mascates, realizou a instalação do

pelourinho às escondidas, o que foi interpretado pelos olindenses como uma afronta

direta. Consequentemente, a reação da nobreza da terra foi imediata e violenta.

Após um atentado contra o governador, que fugiu para a Bahia, os ânimos se

exaltaram ainda mais. Nesse contexto, "os olindenses, então, invadiram o Recife,

destruíram o pelourinho, prenderam as autoridades que aí estavam e seguiram para

Olinda a fim de deliberarem sobre a sucessão do governador" (ANDRADE, 1995, p.

3).

    Ademais, é importante destacar que o conflito tomou proporções que

ultrapassaram a mera disputa municipal, ganhando contornos de contestação à

própria autoridade real. Foi nesse cenário de vácuo de poder e revolta que surgiu

uma das propostas mais radicais do período, protagonizada pelo líder olindense

Bernardo Vieira de Melo. Segundo o texto, em uma reunião do Senado da Câmara

de Olinda, em 1710, ele teria proposto uma ruptura mais profunda com o sistema

colonial vigente. O documento descreve que Vieira de Melo:


proclamou a independência de Olinda, com um Governo republicano

aristocrático semelhante ao de Veneza, admitindo até a hipótese de,

em caso de necessidade, os olindenses se colocarem sob a

proteção da França (ANDRADE, 1995, p. 2).


    Sendo assim, para alguns historiadores citados na obra, esse ato configuraria

a "primeira iniciativa republicana no Brasil", antecedendo movimentos como a

Inconfidência Mineira. Contudo, a resposta da Coroa Portuguesa foi dura e decisiva

para restabelecer a ordem colonial. Com a chegada do novo governador Felix José

Machado, em 1711, o Recife teve sua autonomia confirmada e iniciou-se uma

perseguição aos líderes da revolta.

    Portanto, o desfecho da guerra foi marcado pela repressão aos nobres de

Olinda e pela consolidação do poder dos comerciantes do Recife. Muitos dos

envolvidos foram presos e enviados para Lisboa, onde tiveram um fim trágico. O

texto relata que, entre os detidos, "estavam Bernardo e André Vieira de Melo, que

morreram em 'acidentes' na própria prisão" (ANDRADE, 1995, p. 3).


    Então, a Guerra dos Mascates evidenciou as fissuras do sistema colonial e o

choque entre a antiga aristocracia rural e a emergente burguesia mercantil. Dessa

forma, o conflito não apenas redefiniu a geografia política de Pernambuco, com a

afirmação do Recife como centro de poder, mas também demonstrou o desejo de

autonomia das elites locais frente às imposições da Metrópole.


Referências

ANDRADE, Manuel Correia de. A Guerra dos Mascates. In: Pernambuco Imortal.

Recife: Jornal do Commercio/Governo do Estado de Pernambuco, 1995. v. 4.

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