Pular para o conteúdo principal

A Grande Seca no Sertão e sua nova representação digital

No século XIX, Pernambuco era um estado de contrastes profundos. Enquanto a região da zona da mata prosperava com o cultivo e exportação de açúcar, o sertão enfrentava ciclos devastadores de seca e abandono. Em 1877, uma das maiores secas da história do Nordeste assolou o estado, causando perdas irreparáveis na agricultura, dizimando o gado e levando milhares de sertanejos à miséria.

Diante da riqueza histórica e cultural do sertão nordestino, como compreender a profundidade desses eventos? Mais do que leituras ou visitas a museus, o contato com o cotidiano sertanejo pode ser explorado de forma inovadora por meio dos videogames. 


Em busca de sobrevivência, muitos migraram para as capitais, como Recife, que se tornaram um ponto de convergência de retirantes. Contudo, essas cidades não tinham infraestrutura para lidar com tamanha demanda, o que resultou em acampamentos improvisados e condições insalubres para os recém-chegados. 

Nesse período, as políticas públicas ainda eram escassas e pouco difundidas. Embora a Inspetoria Federal de Obras contra as Secas (IFOS) só fosse criada em 1909, as discussões sobre obras hídricas começaram durante o Segundo Império e se intensificaram com a proclamação da República. Mesmo assim, a desigualdade social e a falta de ações concretas amplificaram os impactos da seca. Essa realidade não apenas moldou o sertão como cenário de sofrimento, mas também como palco de resistência e cultura, inspirando movimentos como Canudos e uma vasta produção artística que buscava dar voz ao povo sertanejo.


É nesse ponto que entra Árida: Backland’s Awakening, uma experiência que permite aos jogadores mergulharem no sertão do século XIX e vivenciarem, ainda que virtualmente, os desafios de sobrevivência na terra árida.

Árida: Backland’s Awakening, desenvolvido pela Aoca Game Lab, é ambientado em meio à seca que castigava o sertão no final do século XIX. A protagonista, Cícera, é uma jovem de 13 anos que vive em um pequeno vilarejo ao lado do avô, um ex-vaqueiro. À medida que a seca se intensifica, ela se vê forçada a partir em busca de melhores condições de vida, tendo como destino a Vila de Canudos, símbolo de esperança para muitos retirantes.


O jogo se passa em um sertão cuidadosamente recriado, com uma paisagem marcada por mandacarus, árvores secas e construções abandonadas. Elementos históricos são integrados ao cenário, como o uso de utensílios típicos da época, como facões e enxadas, e a representação de vilas e igrejas que refletem a arquitetura local. A narrativa incorpora as dificuldades da época, como a busca por água e alimentos, ao mesmo tempo em que mostra a resiliência e a solidariedade das comunidades sertanejas.

O diferencial de Árida está na riqueza de detalhes que evidencia a cultura nordestina. O jogo traz expressões do dialeto regional, alimentos como o umbu e o caju, e uma trilha sonora que mistura sons do sertão com a cadência dos cordéis. A experiência é completada por missões que envolvem não apenas sobrevivência, mas também interações com NPCs que personificam figuras típicas da região, como agricultores, vaqueiros e anciãos.


Dito isso, é essencial poder olhar a seca de 1877, que marcou profundamente Pernambuco, assim como todo o sertão, em uma nova e revigorante perspectiva, toda essa carga histórica é um pano de fundo que ressoa no universo de Árida, retratando de forma única e humana diversos temas que frequentemente são deixados de lado. A migração forçada, a luta pela sobrevivência e a criação de laços de solidariedade entre os sertanejos são elementos que dialogam diretamente com o contexto histórico da época. No jogo, a jornada de Cícera reflete a experiência de milhares de retirantes que buscaram em cidades como Recife ou em vilarejos como Canudos a esperança de uma vida digna.

Nesse sentido, Árida também nos ajuda a imaginar o impacto das mudanças sociais do período. Pernambuco, como um dos centros do poder econômico e político do Nordeste, tinha sua elite desconectada das realidades do sertão. No entanto, histórias como a de Cícera nos levam a repensar essa relação e a enxergar o sertão como um espaço de resistência e protagonismo histórico.


Por fim, Árida: Backland’s Awakening é mais do que um jogo; é uma ponte entre o passado e o presente. Ele não apenas nos ensina sobre as adversidades enfrentadas pelos sertanejos, mas também celebra a cultura nordestina em toda a sua riqueza e diversidade. Para os pernambucanos e apaixonados por história, Árida é uma oportunidade de revisitar o século XIX com novos olhos, valorizando o sertão não como um lugar de miséria, mas como um símbolo de força e resiliência. Um convite irresistível para explorar o passado de forma imersiva, reflexiva e emocionante.

Árida: Backland’s Awakening está disponível na plataforma Steam: ARIDA: Backland's Awakening no Steam

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

RESISTÊNCIA E ANCESTRALIDADE: AS LUTAS QUILOMBOLAS NO INTERIOR DE PERNAMBUCO

As comunidades quilombolas do Agreste pernambucano conservam viva a memória de uma ancestralidade africana e uma histórica luta por direitos sociais e territoriais. Formadas por descendentes de escravizados fugitivos, essas comunidades resistiram ao colonialismo e à exclusão até os dias atuais. Castainho (em Garanhuns-PE) e Imbé (em Capoeiras-PE) exemplificam essa trajetória de enfrentamento às injustiças. Como observam estudos locais, “o Quilombo do Castainho está situado em Garanhuns-PE e possui grande relevância histórica e cultural. Esse quilombo é um dos muitos que simbolizam a resistência dos povos afro-brasileiros desde o período colonial”(Gomes e Santos 2023). Hoje reconhecidas como Comunidades Remanescentes de Quilombos (CRQs), elas preservam saberes, festividades e identidades próprias, enquanto reivindicam o direito às suas terras. Os quilombos do interior de Pernambuco remontam aos remanescentes do antigo Quilombo dos Palmares (extinto em 1694), cujos fugitivos se dispersar...

Maracatu Rural: Uma expressão pernambucana

  O Maracatu Rural, também conhecido como Maracatu de Baque Solto, é uma expressão cultural profundamente enraizada na Zona da Mata pernambucana, constituindo-se como uma das mais ricas e emblemáticas manifestações populares do estado de Pernambuco. Diferente do Maracatu Nação (ou de Baque Virado), o Maracatu Rural apresenta características únicas que refletem sua história e conexão com o universo rural. Ele surge como uma expressão híbrida, resultado de uma complexa interação entre elementos africanos, indígenas e europeus, evidenciando a interculturalidade da cultura brasileira. Uma das figuras mais marcantes dessa manifestação é o caboclo de lança, símbolo central do Maracatu Rural. Com seus trajes exuberantes, golas bordadas, chapéus adornados com fitas coloridas e uma lança decorada, o caboclo de lança representa a força, a resistência e a identidade cultural das comunidades que preservam essa tradição. O papel desse personagem transcende o aspecto performático, pois ele carre...

O ataque de Lampião a região de Serrinha do Catimbau (Paranatama)

    O fenômeno do banditismo se manifestou de maneira marcante no Sertão do nordeste brasileiro. Durante a República Velha (1889-1930) e nos primeiros anos do Estado Novo (1930-1945), o fenômeno do banditismo surgiu no nordeste brasileiro através do cangaço. Os cangaceiros eram “foras da lei” que se rebelavam contra a sociedade dos coronéis. Contudo, não tinham interesse em mudar a sociedade, apenas viver a margem dela, fazendo suas próprias regras. O cangaceiro mais conhecido, e um dos últimos cangaceiros a existir, foi Virgulino Ferreira da Silva, conhecido como Lampião, ou mesmo como o “Rei do Cangaço”. Ele foi responsável por criar a estética do cangaço e de introduzir as mulheres nos bandos de cangaceiros, que eram exclusivamente masculinos, ao se apaixonar e se juntar com Maria Bonita. Contudo, Lampião era muito conhecido pelos crimes violentos que cometia, entre eles, ataques com seu bando a várias regiões do nordeste. Entre os muitos ataques de Virgulino, houve um ataq...